
O mercado de trabalho média e alta gerência pós carnaval, o que vem por aí.
5 de março de 2025Como dissemos no artigo do mês passado, tivemos retração em dezembro e janeiro, e fevereiro viria forte com impacto provável em março.
Isso de fato aconteceu no mercado de alta gerência. As empresas estão mudando os planos, grupos nacionais e multinacionais se reagrupando no país, empresas vendendo áreas e negócios deficitários, novas empresas surgindo de fusões entre rivais.
Desligamento e enxugamentos de estrutura em todos os grupos industriais globais, na Europa, América e Oceania, mesmo no segmento de bens de consumo, menos suscetível a oscilações de vendas. As incertezas estão no ar.
Grupos varejistas se reagrupando nas estratégias de investimentos, perfil de lojas, geografia logística, tudo visando diminuição de custos e atender às novas demandas dos consumidores. Falta pé de galinha, moela de frango e a famosa dobradinha nos supermercados. Impressionante como conseguimos retroceder em vez de avançar.
Na Europa, gôndolas vazias devido às cadeias logísticas desarrumadas e abastecimento do agro comprometido em proteínas animais e vegetais em função de problemas climáticos, preços internacionais de commodities oscilando para baixo, rentabilidade caindo e insumos aumentando. Um caos logístico que afeta os preços e traz inflação em todas as regiões do mundo ocidental.
Apesar disso, a mão-de-obra disponível é escassa, o mercado continua contratando principalmente em cargos que fazem a diferença nesse cenário mercadológico: vagas de Marketing e vendas, marketing e produtos digitais, e-commerce, custos e tributos, finanças e logística de distribuição, cargos industriais de manufatura de consumo e bens semiduráveis. Resumo da ópera: empresas pequenas e médias desligando por mudanças estratégicas e dificuldades de caixa no rumo do negócio, empresas grandes desligando executivos longevos com salário acima da “nova média salarial” e contratando, ocupando espaço daqueles que fraquejam.
Fevereiro e março foi de retomada de contratações para média e alta gerência, e deve continuar assim por mais alguns meses. Como já dissemos, as projeções, quase unânimes do mercado, são de PIB abaixo de 2 % em 2025, com taxa de juros altíssima, estagflação (inflação com recessão) no terceiro e quarto trimestre do ano (PIB de – 0,5 % e – 0,7%), fechando a inflação no final do ano acima de 6 %, se nada for feito. Resumo da ópera: pesar disso tudo, na minha opinião, é esperado que o mercado para alta gerência continue contratando, mesmo com o desaquecimento da economia no segundo semestre.
A Balança comercial deve fazer bonito esse ano graças às exportações do agro, petróleo e commodities metálicas recuperando preço, mas o déficit público (expansão fiscal) continua totalmente sem controle. Gastamos mais do que arrecadamos, mesmo com arrecadação crescente, e fecharemos o ano com uma dívida bruta e serviço da dívida explosiva. Estamos chegando no limite da exaustão total desse modelo, aliás o mesmo modelo de 20 anos atrás que culminou com a maior crise econômica da história do Brasil no segundo governo Dilma. E o Trump nem começou a taxação.
A nossa taxa de investimento sobre o PIB é ridícula, 16% este ano. O mínimo que o país precisa é de 25 % sobre o PIB para crescer acima de 3 ou 4 % ao ano. Crescimento sem investimento em infraestrutura é crescimento falso. Aumento da riqueza só acontece quando ela se movimenta. Ser o maior agro do mundo sem estradas e portos para escoar, é filme de terror. Produzimos bem da porteira pra dentro e perdemos tudo da porteira para fora. Não funciona.
O paciente não reage mais aos antibióticos. Septicemia. Com isso temos executivos estressados, ansiosos, desmotivados, insatisfeitos, salários defasados e bônus caindo, saindo da fábrica 21:00 e chegando em casa 22:00.
É frequente recolocarmos executivos que encontram desafios surreais e já se desmotivam nos primeiros 3 meses de trabalho. O modelo está esgotado, as pessoas entrando em parafuso e buscando transição de carreira, sem saber que vai ser mais do mesmo em qualquer outra empresa. O papel dos RH´s nunca foi tão crítico para motivar e segurar a mão-de-obra gerencial.
Guardada as exceções, a família toda adoece, a economia padece, o crime recrudesce, a incompetência agradece. Nosso problema sempre foi puramente político. Retrofit não vai adiantar, precisamos reconstruir toda o arcabouço jurídico institucional. Trabalho para gigantes, mas falta mão-de-obra aí também.