
MAX TAVARES ENTREVISTA ADILSON MIRANTE: O MERCADO DE TRABALHO DA ALTA GESTÃO
10 de julho de 2025Nunca foi tão importante reter mão-de-obra qualificada como agora. As trocas de cadeira estão aquecidas. Julho, por incrível que pareça, bateu recorde de contratações no país, o que as projeções não indicavam.
Indicavam sim, desaquecimento da economia e mais desligamentos, o que também ocorreu. O desaquecimento de fato começou, mas em bens duráveis, semi duráveis e exportadores de manufaturados.
O mercado segue aquecido em bens não duráveis e serviços, apesar do pessimismo que ronda as pesquisas sobre a saúde da nossa economia, e mostra o aumento da renda média provocada pela escassez de mão-de-obra (indústria e serviços). Empresas estão buscando “roubar” profissional do concorrente. Mas você vai me perguntar: Esse é o motivo para as contratações estarem aquecidas? Parece que sim. Não é uma economia movida por novas contratações com aumento de quadro. Na maior parte dos casos são reposição de profissionais que pediram demissão. É a troca das cadeiras.
O número de contratações com carteira assinada continua avançando sobre o número de demissões, mas na base da pirâmide principalmente. O volume de pessoas procurando emprego formal tem queda a cada dia. Por quê?
Várias são as razões; Muitas empresas só conseguem contratar quem está trabalhando, quem está trabalhando busca negócio próprio, a indústria de manufatura de semiduráveis e duráveis deixam de repor funcionários por falta de crescimento e o giro da mão-de-obra favorece que quer ganhar mais na indústria de bens de consumo não duráveis e serviços, cujo mercado continua crescendo apesar dos preços altos. Isso vale mais para cargos administrativos, e torna mais demorada a recolocação de executivos de fábrica e de área comercial que não forem do mesmo tipo de manufatura ou cadeia de valor. Finanças, logística, supply chain e recursos humanos estão em alta, diretoria comercial, CEOs e CFOs também estão reagindo bem.
A taxa de desemprego de qualquer forma contínua em queda, nunca se contratou tanto como nesse mês de julho. Aqui na M1 batemos recorde de clientes recolocados no sul e sudeste do país. Um fato importante é salientar que é muito mais fácil recolocar quem está desempregado do que aqueles que estão trabalhando. É mais fácil e mais rápido, porque as empresas procuram contratar sem inflacionar a base de salários interna. Em último caso, resta trazer alguém da concorrência e pagar mais.
Embora a taxa de desemprego continue caindo, o norte e nordeste continuam com taxas de 8% e 9 %, enquanto no sul do Brasil essa taxa não passa de 4 % de pessoas desempregadas. Os Estados mais industrializados carregam 60 % das contratações incluindo São Paulo, como temos falado há tempos. Esse desequilíbrio é fruto da diferença do poder de consumo entre as diferentes regiões do país, o conhecido trinômio poder industrial X investimentos em infraestrutura X poder de consumo.
Ou seja, a taxa de desemprego, agora em 5,8 % na média nacional (entre os menos escolarizados a média é 9 %) continua sendo maior no interior e no norte / nordeste. Os mais escolarizados de todas as regiões são profissionais mais valorizados nessa hora, porque mais especializados, e são disputados.
O volume de contratações de média e alta gerência aumenta consequentemente, mas está distribuída entre as várias regiões metropolitanas do sul e sudeste. Isso explica também o aumento de contratações entre os mais velhos porque os cargos de diretoria e c.levels de maneira geral estão em alta. Por quê? Pela necessidade de reposicionamento e composição societária entre grupos nacionais e internacionais na indústria, comércio e principalmente serviços (tecnologia, seguros, logística e fintechs).
Mas tudo isso deve ser alterado e bagunçado pelas tarifas norte americanas aplicadas em todo o mundo no último mês, interferindo no comércio internacional e na logística de todos os modais de transporte mundial. Alguns segmentos no Brasil terão impacto momentâneo e pode alterar a correlação entre mercados cativos e mercados voláteis.
A perda de valor de commodities agrícolas e metálicas podem se intensificar e comprometer o agro já endividado. Teremos trocas de composição acionária nesses segmentos como nunca visto antes. Nossa produtividade no campo está sendo comprometida, logo aí onde éramos imbatíveis. Coincidência?
Uma coisa é certa, vamos exportar empregos a partir de agora para os EUA. Carne, café, têxteis, pescados, calçados, minerais, equipamentos, pedras ornamentais parecem os segmentos mais atingidos e passarão por uma necessária readequação. Desafio imenso para os CEOs, a urgência das decisões virou imperativo de vida ou morte.
Demissões e fechamento de fábricas serão inevitáveis num primeiro momento, e já começaram, os mais fortes vencerão, e o grande perdedor será o comércio internacional “legalizado”.
A política com “p” minúsculo ditando a economia como nunca vimos antes.